A CLÍNICA

Pablo Picasso

A CLÍNICA

A Psicanálise surge no fim do século XIX como uma clínica que inscreve na cultura a dimensão inconsciente do sintoma psíquico.

Entender que os sintomas psíquicos apresentados pelas histéricas de seu tempo eram expressões do desconhecimento do “si mesmo” que habita cada sujeito no anodamento complexo de seu corpo, seu imaginário e sua fala, foi o grande passo dado por Freud em suas investigações sobre a mente humana, que alteraram o raio das questões sobre a subjetividade na cultura.

A descoberta freudiana contribuiu sobremaneira para os novos rumos do tratamento das doenças mentais, e não porque abarcou em seus consultórios a extensão maior do contingente necessitado de tratamento eficaz, mas porque, com seus princípios articulados no decorrer de um século e meio de estudos e pesquisas, a partir da prática clínica, pode discutir largamente seus fundamentos com curiosos, estudiosos da subjetividade e profissionais ocupados com a cultura e com a mente humana, marcando definitivamente uma posição que busca articular as operações gozosas próprias de nosso tempo para as soluções instantâneas dos impasses. A Psicanálise não é um dispositivo para a normalização do sujeito. Ela é uma clínica do desejo, uma exigência à singularidade, ao íntimo, ao que é próprio à invenção humana.

Esse novo trajeto de interlocuções que a Psicanálise pôs em marcha sublinha zonas de tensões nas diversas discussões, no âmbito do laço social, onde a perspectiva freudiana, reforçada pela instrumentação lacaniana, denuncia a falácia dos tratamentos de combate ao sintoma.

O sintoma é o núcleo da formulação neurótica que, na ordem simbólica, coloca o sujeito, confrontado com seu desejo, diante dos ditames da referência ao Outro que o constitui. Ora, como levar adiante uma solução de combate a essa âncora da subjetividade sem estabelecer um rumo nefasto de desestabilização de “si mesmo”?

Ao contrário de refutar e anestesiar a expressão de mal-estar do sintoma, na singularidade de um sujeito, a Psicanálise o responsabiliza por tomar posição no rumo de sua existência, apropriando-se de seu desejo, construindo sentidos diante do desconhecimento e inventando um saber fazer com o sintoma. Mas também toma lugar no que resulta da exigência do gregário para a ordenação da vida humana: a política do laço social.

O analista é um sujeito de seu tempo, comprometido com a invenção das soluções para as insuficiências da ordem simbólica que constituem e desafiam sua prática. De maneira particular, é um sujeito de seu tempo e do espaço que ocupa em sua rede simbólica, expressa de maneira proeminente em sua.

Dessa forma, cabe-lhe a tarefa inconteste da responsabilidade social, no sentido do testemunho de uma clínica, arredia à ordenação da formação acadêmica, produzida pela via da transmissão de uma prática que é sustentada há mais de um século com rigor, vigor e eficácia, pela reunião de analistas, dentro das instituições, para uma formação interminável, razão de seu reconhecimento na atopia de sua posição dentre às demais profissões.

As políticas vigentes no âmbito da assistência à saúde, particularmente à saúde mental, não contemplam o cidadão de baixa renda com o acesso a essa clínica, tal como não o fazem com outras especialidades médicas ou paramédicas oferecidas no mundo de hoje.

 A não oferta dos serviços mais elaborados às camadas necessitadas da sociedade faz com que sequer esse contingente conheça o dispositivo da Psicanálise, seja porque não tem acesso à instrução, seja porque não tem acesso à saúde.

O Toro – Escola de Psicanálise, tomando posição quanto a sua responsabilidade com a transmissão da Psicanálise e com os problemas do laço social, em sua cidade, organiza um serviço no qual seus membros analistas atendem àqueles que têm uma demanda de análise e não possuem recursos financeiros para levar adiante um processo de custos relevantes em consultórios particulares.

Reunindo esforços nessa perspectiva, analistas colocam suas clínicas à disposição desse segmento social sem que isso constitua uma operação filantrópica, mas, sim, uma ordenação extremamente particular quanto aos termos do recurso financeiro para a análise.

Ao mesmo tempo, denunciam a disparidade da divisão de renda e o desamparo de uma parcela grande da sociedade que só em pequena escala, e muito pequena, poderá ter acesso ao nosso serviço. Contudo, será um grupo que, representando seu segmento social, poderá propagar esse acontecimento, e isso estabelecerá seus efeitos.  

A análise não pode ser gratuita visto que é o terreno do acordo com a dívida que constitui o sujeito na ordem simbólica. Portanto, se a saúde pública, movida por recursos tributários, não paga por esse serviço, é preciso encontrar um valor que seja “significante” de um sentido na renda que sustenta a vida de um analisante.

Essa é uma experiência nova que exige a confrontação do trabalho clínico com as questões que ela suscita nessa nova contextura do trabalho, referido ao compromisso social. Nesse sentido, esse trabalho paga aos analistas envolvidos no projeto com a matéria clínica, enriquecida com novos elementos para a pesquisa, que revigora e desafia os saberes constituídos, promovendo novas invenções, vitais para uma prática da singularidade. 

INFORMAÇÕES E AGENDAMENTOS:
Segunda a quinta, das 16h00 às 21h30