MANIFESTO DO TORO – ESCOLA DE PSICANÁLISE FRENTE À AMEAÇA FASCISTA NO BRASIL

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O TORO – ESCOLA DE PSICANÁLISE vem a público manifestar sua posição neste momento grave da vida nacional, em que o país se vê obrigado a confrontar a ameaça efetiva de despencar num abismo de cujas agruras e brutalidades umas tantas certezas nos julgariam protegidos, certezas estas que se evidenciam flagrantemente infundadas.
Em circunstâncias assim desafiadoras, uma boa maneira de repensar o que seja a pertinência de um posicionamento da psicanálise numa pólis assim conflagrada é mirar na direção do passado, voltar aos anos 60-70 do século passado e constatar como as coisas se davam. Afinal de contas, nos tempos da ditadura militar em nosso país o mais importante periódico sobre psicanálise tratava de apresentá-la como uma ciência pura e isenta, sem relação com os campos social e político. Se se quisesse fazer alguma referência às agruras daqueles tempos sombrios, que se evocasse, quem sabe, o exílio forçado de Freud em Londres, mas nunca o processo de “arianização” a que a psicanálise se submeteu na Berlim nazista dos anos 40, por exemplo. Eram tempos, aqueles da ditadura brasileira, de “censura voluntária”, auto-imposta, que, de um lado, produziram a execração de quem exigia um compromisso engajado contra o arbítrio (veja-se ao que foi submetida a psicanalista Helena Besserman Vianna, tão brava em seu tempo – denunciadora de práticas de tortura por parte de Amilcar Lobo, médico, militar e membro de uma sociedade psicanalítica do Rio de Janeiro – quanto esquecida nos dias atuais), e, de outro, apenas recalcaram o horror de uma ditadura supostamente branda, que agora retorna, sem retoques ou ressalvas, para o pavor de uns tantos e uma indiferença que, generalizada, se apresenta assustadora. Como se tudo isso tivesse surgido ex nihilo: a leniência pretérita frente à brutalidade então perpetrada foi ingrediente indispensável para a gestação do horror fascista, versão tupiniquim da herança escravocrata que nos configura, que vem junto com a quebra das regras mínimas do jogo civilizatório, com o que hoje temos de lidar.
A psicanálise se inscreve na história da cultura demarcando seu campo na contramão do status quo das inscrições da convenção de um tempo. Ela aponta a dimensão do impossível da adequação na construção dos possíveis semblantes no campo da linguagem e do difícil jogo das significações que preside as tensões do laço social. Como já se apontou, durante muito tempo pairou, de maneira nem sempre velada, o equívoco de que analistas deveriam viver na mais absoluta reclusão quanto às suas ideias e às suas tomadas de posições no campo da política. A cada vez que se evocou a contundente frase de Lacan, “o inconsciente é a política”, tratou-se da questão de maneira a refrear as depreensões que estabeleciam as consequências mais imediatas do ato analítico na trama de sua pólis, em seu tempo. Quando toda essa trajetória rumo ao fascismo começou a ganhar consistência, no impeachment da presidenta Dilma Roussef, houve quem, dentro das sociedades e escolas de psicanálise, defendesse a neutralidade dos ajuntamentos, numa postura que faria corarem-se uma vez mais Hélio Pellegrino e Eduardo Mascarenhas, que em seu tempo (anos 70-80) combateram o pretenso apolitismo das instituições, denunciando-lhes os privilégios – e por conta disso foram expulsos da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro –, tratando de, nas palavras deste último, “tirar a psicanálise de seus castelos mal-assombrados e transportá-la para o espaço público”. Houve quem se horrorizasse com a decisão de alguns desses grupos de se manifestarem contundentemente contra o processo antidemocrático que se estampava. Ficava cada vez mais claro em qualquer análise histórica, política e, por que não dizer, psicanalítica dos fatos, que caminhávamos para o precipício. Este perigo grave envolvia muitas conquistas há não muito tempo esboçadas, como a nossa jovem democracia, a iniciativa do Estado de marchar na direção dos direitos humanitários referentes as urgências do tão diversificado povo brasileiro, o arejado deslocamento do lugar e da expressão afirmada dos homossexuais no laço social.
Sustentando, na colateralidade de muito incômodo, a perspectiva da exigência da participação do analista na luta pela democracia, único terreno possível para o exercício da prática da psicanálise, surge um movimento de ativa militância de sociedades e escolas de psicanálise convocadas por alguns analistas que se puseram a falar e escrever sobre o assunto. Desta forma, sem nenhuma dúvida, pudemos acompanhar uma mudança radical no modo acanhado como até então a psicanálise esteve inscrita nos movimentos políticos da história brasileira para o que verificamos agora. Junto com outros tantos em suas respectivas sociedades e escolas, o Toro – Escola de Psicanálise desde o primeiro momento tem tratado de estabelecer discussões que resgatam a história do Brasil na intersecção com a história da psicanálise em seu cerne, ciente de que não é possível não se confrontar com os acontecimentos do tempo presente.
O obscurantismo frente ao mal-estar na civilização desafia a conquista de um saber quanto ao qual a psicanálise decididamente se implicou e a partir do quê definiu seu lugar. Freud foi vítima de uma tenebrosa vereda deste obscurantismo. Desde o primeiro momento de sua obra monumental, incendiada pelos nazistas as vésperas do mencionado exílio para escapar do trágico destino que logo depois incinerou suas irmãs, apontou o que Lacan articulou, a saber, que na linguagem reside a potência para “fazer ser o que não é”. Isso se presta ao bem e ao mal. Por um lado, encontramos o caminho para a incessante invenção do objeto para o desejo, pelo outro a alienação a esse objeto. Os analistas estão advertidos das operações que infernizam o laço entre os humanos, calcado na insuficiência simbólica. A medida dessa insuficiência nós a experimentamos, ululante, em nossos dias, em nosso Brasil. A palavra serve em todas as direções e em grande medida serve para esconder o monstro e criar o monstro inimigo. Quando isto acontece, a palavra ganha milhões de vozes em uníssono, no fenômeno de massas que Freud nos fez entender. Cabe a todos nós, implicados que estamos na articulação das questões que envolvem o mal-estar na civilização, na atipia e na atopia próprios a este dispositivo, buscando no campo do conhecimento, na arte, na cultura erudita e popular, assim como na singularidade do estranho que se apresenta em nossas clínicas, bradar pelo porvir em condições de reinvenção para o “mais um” do “bem dizer” da diversidade possível.
Democracia, sim! Fascismo, não!

EVENTOS

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